mais de omar,

digressões de um livro revertido em instalação
(pensando no desregistro da caligrafia. lembrando dos babilaques)

Impreciso é, antes de qualquer outra coisa, uma busca poética. Uma tentativa de fluir sem amarras, sem terno, gravata, uniforme. Em 2005 lancei meu primeiro livro À Deriva (ed. Dantes), preparava um segundo para lançar em 2009, mas de repente o livro – editado, tipografado, impresso – não fazia mais sentido para mim. Eu queria que o objeto tivesse uma vida para além da leitura, que a vida pulsasse nele. Eu queria sair da monotonia tipográfica e que a parte visual se torna-se um elemento participativo da minha escrita. Que conteúdo e forma pudessem se somar de forma orgânica gerando por vezes uma terceira camada – subjetiva – através do que eu não consigo esconder de mim na minha mão.

Impreciso é uma busca poética. A deformação lúdica do sonho. Os poemas perderam título, se fragmentaram, se confudem. Impreciso. Nesse processo de escrita, reescrita, me afeiçoei à minha escrita, à minha letra, minhas rasuras, ao meu caderninho. Tornou-se parte do processo, da vida que encontro/invento nas frases. A intensidade. Como se a caligrafia mantivesse o texto quente. E cheio de segredos. Pois a vida se descobre na pele, se vive na unha. Afinal, a morte só existe nos outros. Afinal, não se morre senão de medo.
A letra descobre o poeta. Por isso Impreciso parte de um livro-caderno manuscrito. Com erros visíveis, páginas rasgadas, rasuras, rabiscos. Impreciso é um trabalho visual que tem como eixo a poesia. Não a toa outro braço é a série Eixo. Um quadro preso à moldura apenas por um eixo central que gira. Um quadro com frente e verso – de um lado foto, do outro poema, em ambos poesia – preso como um móbile, que colocado em pé sobre uma superfície adquire uma tensão entre estabilidade e fragilidade, parado mas com a potência do movimento. A fragilidade também se encontra na escrita do poema, feita com lápis de olho, que borra com o toque. Item feminino, sorrateiramente apossado pelo poeta, para escrever suas angústias, incertezas, medos – motivados, em diversos momentos, por ela. O lápis dos olhos dela para exprimir o interior dele.
A instabilidade dos olhos, o eixo estático e frágil deriva as fotos de Turbulências são apenas nuvens no caminho - um borrão, uma mancha de terra ou tinta que se revela um poema impulsivamente destruído – lê-se apenas palavras do início e do fim.
Instabilidade do sonho, que se transforma sem aviso, sem razão. Que engana o olhar, onde as coisas podem ser o que parecem ser, mas também podem ser outras coisas. ( Mercador de Nuvenssegue a ilusão, se assemelhando com fotos da água do mar, que se transforma em tecido, que revela uma mulher dormindo.
Anotei os meus sonhos/ porque sonhos se misturam e perde-se sentido/ como se ar fosse labirinto e nuvens ilusão/ sem definir linha rabiola cerol / pipa se prende pra voar / piões desmancham cores ao dançar/ mas o que escondem as cores?
Insegurança e instabilidade do fio da agulha, de um Bom Leão. Fotos do tamanho de postais, colocadas dentro de um envelope amarelo e atadas por uma linha vermelha, na ponta da linha a agulha. Fotos riscadas com frases/observações poéticas. O desconforto de se manusear as fotos com a iminência de ser espetado. Desconforto da última frase: “Quantos versos ainda vou tecer pra você desfiar?” E a mulher que dorme ou finge dormir.
Dois corações fecha com a imprecisão de duas imagens similares, a primeira embaçada pelo vapor – aparentando, talvez, com o esboço de um coração. A segunda, mais definida, apesar de ainda turva, uma caixa de plástico, cuecas brancas, emboladas, sob a solidão da água que cai do chuveiro. Mesmo objeto, ângulo e local. Como na música Dois corações de Herivelto Martins e Waldemar Gomes: “Tudo é alegria/ tudo é ilusão”.
Impreciso é texto e imagem, porque ser poeta é enxergar o mundo com outros olhos, não-domesticado, enviesado. Impreciso porque, como disse Merleau-Ponty, “o escritor, enquanto profissional da linquagem é um profissional da insegurança”.

fonte imprecisa: http://www.obomleao.com/2010/10/09/exposicao-impreciso/

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